Cigarro eletrônico: o novo cigarro do século 21?

02/04/2025

Cigarro eletrônico: o novo cigarro do século 21?

Por Marli Maria Knorst, Igor Gorski Benedetto, Mariana Costa Hoffmeister, Marcelo Basso Gazzana

            O cigarro eletrônico (CE) tem sido um tema de crescente debate em diversos países, gerando controvérsias tanto entre a população quanto entre profissionais da saúde. Considerado por alguns como uma alternativa ao cigarro tradicional, o uso do cigarro eletrônico aumentou consideravelmente, especialmente entre tabagistas e, mais preocupante ainda, entre adolescentes. O sistema eletrônico de liberação de nicotina do CE foi inicialmente proposto como uma solução para auxiliar na cessação do tabagismo. No entanto, a falta de dados sobre sua segurança, eficácia e impacto na saúde a longo prazo levanta sérias questões. Neste contexto, é importante explorar os aspectos relacionados à segurança, à eficácia no tratamento da dependência e à regulação do uso do cigarro eletrônico.

A prevalência do tabagismo continua sendo um grave problema de saúde pública mundial, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacando-o como uma das principais causas de mortes preveníveis. No Brasil, cerca de 220 mil mortes anuais estão relacionadas ao uso do tabaco, e 16,1% da população adulta brasileira é composta por tabagistas. Apesar dos avanços nas políticas de controle do tabagismo, como a Convenção Quadro para o Controle do Tabaco, ainda persiste a dificuldade de lidar com a crescente popularidade de alternativas como o cigarro eletrônico. No país, o uso do cigarro eletrônico é proibido, mas sua comercialização continua sendo um tema controverso.

Os dados sobre a segurança do uso do cigarro eletrônico são limitados. Embora o CE seja amplamente promovido como uma alternativa "menos prejudicial" ao cigarro tradicional, a falta de evidências conclusivas sobre seus efeitos a longo prazo é um motivo de preocupação. Os constituintes dos cartuchos de nicotina variam bastante entre as diferentes marcas, e estudos relatam efeitos adversos à saúde em curto prazo, como irritação nas vias respiratórias, tosse e náusea. Além disso, a toxicidade do cigarro eletrônico em longo prazo ainda não foi adequadamente estudada. A ausência de dados sobre a segurança e a eficácia do cigarro eletrônico no processo de cessação do tabagismo reforça a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa sobre o produto.

Uma das principais preocupações é a utilização do cigarro eletrônico por adolescentes. Estudos realizados com adolescentes de diferentes países, como os Estados Unidos e a Coreia do Sul, mostram que o uso do cigarro eletrônico tem crescido, mesmo entre aqueles que nunca fumaram cigarro convencional. Em um estudo americano, a prevalência de experimentação com o CE duplicou em apenas um ano. Além disso, entre os adolescentes que usaram o cigarro eletrônico regularmente, muitos continuaram a fumar cigarros tradicionais, o que pode sugerir que o CE não está efetivamente contribuindo para a cessação do tabagismo, mas, ao contrário, pode prolongar a dependência de nicotina.

O impacto do cigarro eletrônico na iniciação do tabagismo é outro ponto de preocupação. A utilização do CE pode atuar como uma "porta de entrada" para o uso do cigarro convencional, especialmente entre os jovens. Isso é particularmente alarmante porque muitos adolescentes, ao iniciarem o uso do cigarro eletrônico, podem acabar sendo expostos à nicotina e desenvolver dependência, o que aumenta o risco de transição para o uso do cigarro tradicional. Além disso, a exposição à nicotina em idades precoces pode ter efeitos prejudiciais no desenvolvimento cerebral, o que agrava ainda mais a preocupação com o uso do cigarro eletrônico por menores de idade.

A promoção agressiva dos cigarros eletrônicos pela indústria do tabaco é outro fator que intensifica o debate. As empresas que produzem CEs têm utilizado estratégias de marketing agressivas, como a associação do produto a celebridades e a construção de uma imagem moderna e glamorosa. Essas estratégias têm atraído especialmente os jovens, um público suscetível à influência de campanhas publicitárias. Em 2012, a aquisição de uma marca de CE por uma grande corporação de tabaco e a subsequente divulgação de comerciais com celebridades geraram uma onda de popularização do produto. Com isso, a indústria de tabaco se aproveita da falta de regulamentação para expandir o mercado de cigarro eletrônico.

No entanto, a crescente aceitação do cigarro eletrônico no mercado global também tem gerado preocupações entre especialistas em saúde pública. A falta de regulamentação eficaz em países como os Estados Unidos é vista como uma falha na proteção da saúde pública. Atualmente, os cigarros eletrônicos não são regulamentados como medicamentos ou produtos derivados do tabaco em muitos países, incluindo os Estados Unidos. Isso significa que, sem uma regulamentação mais rigorosa, o CE pode ser comercializado sem que sua segurança e eficácia sejam adequadamente avaliadas. Em contrapartida, a União Europeia e o Reino Unido estão buscando regulamentar os CEs como produtos medicinais, reconhecendo a necessidade de maior controle sobre esses dispositivos.

O impacto do cigarro eletrônico na saúde pública exige uma abordagem cuidadosa e equilibrada. A regulamentação do uso do cigarro eletrônico deve ser baseada em evidências científicas robustas sobre sua segurança e eficácia. Além disso, é crucial que as políticas públicas incluam estratégias eficazes para prevenir o uso do cigarro eletrônico entre adolescentes, que são o público mais vulnerável. A abordagem do tabagismo deve continuar a ser centrada na terapia cognitivo-comportamental e no uso de medicamentos aprovados pelas agências reguladoras, que têm mostrado eficácia no auxílio à cessação do tabagismo.

Em conclusão, o cigarro eletrônico apresenta um dilema complexo para a saúde pública global. Apesar das alegações de benefícios em comparação com os cigarros convencionais, a falta de dados claros sobre sua segurança e eficácia, bem como o potencial para induzir dependência em não tabagistas, especialmente em adolescentes, exige uma regulação mais rigorosa e ações preventivas. A pesquisa contínua sobre os efeitos a longo prazo do cigarro eletrônico e uma abordagem mais vigilante por parte das autoridades de saúde são fundamentais para mitigar os riscos associados ao seu uso e proteger a saúde pública, especialmente das gerações mais jovens.

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