Evitando Recaídas

26/03/2025

Evitando Recaídas

Por Raique Almeida

    A saída de uma internação pode não ser suficiente para evitar uma recaída. Neste texto, abordarei sete passos que podem prevenir a recaída, mesmo que o indivíduo não tenha participado de nenhum tratamento formal, mas tenha o desejo de interromper o uso. Esses passos podem ser úteis para evitar o retorno ao consumo de substâncias.

Quando um tratamento é realizado e o uso de substâncias é interrompido, ele permanece estacionado, permitindo que o indivíduo tenha uma vida normal. Contudo, é essencial viver em recuperação para não sucumbir a uma recaída. A recaída faz parte da doença, ou seja, qualquer pessoa que tenha sido diagnosticada com dependência química, mesmo após um tratamento ou um período de internação, pode vir a recair. Viver em recuperação é a chave para prevenir a recaída, sendo necessário manter a doença sob controle, assim como qualquer outra enfermidade crônica, como a hipertensão, que requer acompanhamento contínuo, exames periódicos e o uso de medicamentos regularmente.

De maneira semelhante à dependência química, quando o indivíduo interrompe o uso de substâncias, a doença permanece em estado estacionário, mas existem sintomas que podem surgir a qualquer momento e desencadear uma recaída. Esses sintomas podem estar relacionados aos pensamentos, sentimentos, emoções, situações e outros fatores que contribuem para o risco de recaída. A seguir, apresento sete passos sugeridos para prevenir a recaída.

Evite as situações aprendidas durante a internação. Evite pessoas, hábitos e lugares que possam estar associados ao uso de substâncias.

Reconheça os seus gatilhos de memória. Esses gatilhos estão relacionados ao seu consumo de substâncias e podem envolver emoções, sentimentos, lugares e horários. Alguns indivíduos, ao chegarem aos horários nos quais costumavam usar substâncias, não apenas recordam o uso, mas também podem reviver as sensações associadas a ele.

Realize psicoterapia. A psicoterapia auxiliará no autoconhecimento, no reconhecimento de seus gatilhos de memória e no tratamento da dependência psicológica, que é muitas vezes mais intensa que a dependência fisiológica.

Cuidado com a autossabotagem. Após um período sem o uso de substâncias, pode surgir a tentação de se sabotar com pensamentos do tipo: “Agora eu posso usar de forma controlada.” Lembre-se: seu cérebro pode induzir você ao erro. A recaída é um processo que depende, muitas vezes, de uma falha pessoal, e ninguém pode conduzi-lo a ela a não ser você mesmo.

Utilize a técnica de substituição de pensamentos. Sempre que pensamentos sobre o uso ou o desejo de consumir substâncias surgirem, ao invés de idealizar as sensações prazerosas do consumo, reflita sobre as consequências negativas pós-uso: os sentimentos de fracasso, vergonha, inutilidade, depressão e os sintomas de abstinência.

Evite a ociosidade. Deixar sua mente vazia favorece o retorno dos pensamentos e lembranças do uso. Busque ocupar-se de forma construtiva, mesmo que não tenha um emprego formal. Organize suas coisas, faça uma limpeza em seu ambiente, especialmente no seu quarto. Um ambiente desorganizado pode contribuir para um estado emocional desorganizado. Caso encontre objetos relacionados ao uso de substâncias, não ceda à tentação de guardá-los. Livre-se deles de forma imediata.

Não tente fazer tudo sozinho. A recuperação é um processo individual, mas é fundamental contar com uma rede de apoio. Embora a jornada de recuperação seja pessoal, é importante buscar ajuda de familiares, psicoterapeutas e grupos de apoio. Mesmo que o primeiro grupo com o qual você se identifique não seja ideal, continue procurando até encontrar o ambiente que atenda às suas necessidades. Estabelecer novas amizades, principalmente com pessoas que também estão em recuperação, é essencial. Não desista na primeira tentativa.

Algo de extrema importância: aceite a ajuda. Sua família pode ser um suporte importante, mesmo que ela não seja como você idealiza. Aceite o apoio deles, com suas limitações e defeitos. Lembre-se de que, muitas vezes, a família também sofre com os efeitos da adicção, e será necessário dar tempo para que ela se recupere e caminhe ao seu lado durante o processo de recuperação. Em muitos casos, os familiares estão tão ou mais afetados pela adicção do que o próprio indivíduo.

Se você não sabe como proceder após a internação, comece a implementar essas dicas. Todas são práticas viáveis de adotar e, exceto pela psicoterapia, não geram custos financeiros. No entanto, é imprescindível colocá-las em prática diariamente até que se tornem um hábito. Para evitar a recaída, é necessário criar novos hábitos. A manutenção dos velhos hábitos pode, sem que você perceba, levar ao retorno ao uso. Não procrastine sua mudança. Não permita que nenhuma justificativa o impeça de transformar a sua vida. Estabeleça uma rotina. Com a rotina, você criará novos hábitos que o manterão distante dos antigos comportamentos relacionados ao uso de substâncias.

Novos hábitos e uma nova rotina irão sustentar seu processo de recuperação, mantendo-o longe da recaída. Não se deixe dominar pelo desânimo ou pela desmotivação. No início, esses sentimentos podem ser constantes, e a tentação de permanecer inativo pode ser grande. Contudo, não se deixe vencer. Assim como seu cérebro aprendeu a funcionar com o uso de substâncias, ele pode reaprender a funcionar sem elas. Para isso, será necessário adotar comportamentos novos, mas de forma invertida. Durante anos, seu cérebro foi condicionado a funcionar com o uso de substâncias. Agora, será preciso reverter esse processo e ensinar seu cérebro a funcionar sem o auxílio delas. A chave desse processo está na repetição. Você precisa criar uma nova rotina, um novo estilo de vida, até que isso se torne automático, da mesma forma que o uso das substâncias um dia foi.

Assim, você estabelecerá um novo padrão de comportamento. Preste atenção nos seus comportamentos e se esforce para mudá-los. Seu comportamento foi alterado devido ao uso de substâncias. Agora, é sua responsabilidade tomar consciência e trabalhar para transformar esses padrões. Modifique sua rotina, observe seus pensamentos, ajuste sua rede de apoio e persista. Dessa forma, você estará no caminho para se manter longe da recaída.

Esses passos podem parecer simples, mas a implementação diária não é tarefa fácil. Portanto, tente. Caso não consiga nas primeiras tentativas, não desista. Continue tentando. Agora que você já conhece os passos necessários, é hora de colocá-los em prática.

 

Referências: Marlatt, G. A., & Donovan, D. M. (2005). Relapse prevention: Maintenance strategies in the treatment of addictive behaviors. Guilford Press.

Becker, D., & Tindle, H. A. (2013). "Coping strategies for preventing relapse in alcohol use disorder." Journal of Substance Abuse Treatment, 45(5), 421-428.

Segal, Z. V., Williams, J. M. G., & Teasdale, J. D. (2018). Mindfulness-Based Cognitive Therapy for Depression (2nd ed.). The Guilford Press.

 

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