O abuso de medicamentos psicotrópicos na contemporaneidade
02/04/2025

Por Marta Regueira Fonseca Pelegrini
O artigo propõe uma reflexão crítica sobre o abuso de medicamentos psicotrópicos, com base na psicanálise, especialmente em relação à subjetividade contemporânea. A análise explora como a cultura atual e as mudanças nos padrões de comportamento influenciam o uso excessivo de medicamentos, como ansiolíticos e antidepressivos, tanto por prescrição médica quanto por automedicação. A partir das teorias de Freud, que aborda o mal-estar na civilização, e das contribuições de autores como Birman, Maia e Albuquerque, o texto investiga as características da subjetividade moderna.
A subjetividade moderna, de acordo com Birman, é marcada por um autocentramento do sujeito, onde a individualidade e a imagem pessoal se tornam centrais. Na modernidade inicial, a introspecção e a moral interna eram os pilares da formação do sujeito, mas na contemporaneidade, o valor se desloca para a exterioridade e o consumo. A busca por prazer imediato e a eliminação das frustrações e dores emocionais tornam-se centrais nesse processo. A medicação psicotrópica emerge como uma resposta para a ansiedade e os conflitos psíquicos, sendo a sociedade atual um reflexo dessa busca por prazer absoluto e satisfação instantânea, levando à tentativa de erradicar qualquer sofrimento psicológico, como a tristeza ou a angústia.
Com o avanço da Psicofarmacologia, a psiquiatria começou a tratar não apenas transtornos graves, mas também os "mal-estares" cotidianos, como tristeza ou ansiedade, com medicamentos. Esse fenômeno reflete uma mudança cultural na qual o sofrimento psíquico, anteriormente considerado uma parte inerente da condição humana, passou a ser tratado como uma disfunção médica. Medicamentos como os antidepressivos tornaram-se amplamente usados, com o objetivo de eliminar sintomas não só da depressão, mas também da ansiedade, prometendo uma vida sem sofrimento. A "medicalização" do sofrimento psicológico é frequentemente promovida pela mídia, que oferece soluções rápidas e definitivas para problemas emocionais. Segundo Scliar e Calligaris, o sucesso dessa abordagem se deve à busca por respostas fáceis para os sofrimentos existenciais, como a tristeza, que passaram a ser vistos como "problemas orgânicos" a serem resolvidos com medicamentos.
Freud, em O Mal-estar na Civilização, sugere que o mal-estar é intrínseco à condição humana, devido ao conflito entre os desejos das pulsões e as restrições impostas pela civilização. A busca por soluções rápidas e paliativas, como o uso de substâncias psicotrópicas, reflete o desejo de eliminar a dor e o desconforto psíquico sem enfrentar as causas profundas do sofrimento. A psicanálise, ao focar na negociação do desejo com a realidade, oferece uma compreensão mais complexa do sofrimento humano, contrastando com a abordagem simplificada e reducionista da Psiquiatria biológica.
O abuso de medicamentos psicotrópicos reflete uma sociedade que evita confrontar as dificuldades emocionais e psicológicas mais profundas. As substâncias psicoativas proporcionam uma sensação artificial de bem-estar, oferecendo uma "máscara para a alma", mas não resolvem as questões subjacentes do sujeito. Como resultado, cria-se uma cultura na qual a dor emocional é evitada a todo custo, gerando uma busca incessante por prazer e felicidade, frequentemente em formas artificiais e temporárias. Isso pode resultar em compulsões, adições e um ciclo de insatisfação, pois o vazio existencial não é resolvido, mas encoberto.
O artigo critica a crescente medicalização do sofrimento psicológico e questiona a busca desesperada por uma felicidade plena e artificial. Embora reconheça a importância da Psiquiatria e da Psicofarmacologia no tratamento de patologias graves, o texto enfatiza os riscos de tentar eliminar a experiência humana do sofrimento e da frustração. Em vez de eliminar o mal-estar, é necessário aceitar a condição humana de ser incompleto e buscar formas mais profundas e realistas de lidar com a dor e os desafios existenciais.