CocaÃna: lendas, história e abuso
31/03/2025

Por Pedro Eugênio M Ferreira, Rodrigo K Martini
O abuso de drogas, particularmente a cocaína, tem se tornado um sério problema de saúde pública no contexto da civilização ocidental. Este trabalho busca aprofundar a investigação histórica sobre o uso da cocaína, um problema com raízes que remontam a mais de 4500 anos, desde os povos indígenas da América do Sul, que utilizavam as folhas de coca. Com a chegada da industrialização no século XIX, a cocaína passou a ser introduzida nos países desenvolvidos, onde inicialmente foi usada para fins terapêuticos, tanto por médicos quanto por figuras como Freud, que a utilizou para tratar uma variedade de enfermidades.
A planta de coca, de onde a cocaína é extraída, é nativa da região andina, e seu uso foi inicialmente restrito às elites incas. Durante o período colonial, apesar da oposição da Igreja Católica, o consumo da coca se espalhou entre os nativos, sendo mascar a folha uma prática comum. Esse uso tradicional de cocaína, com doses moderadas e combinada com elementos alcalinos, visava proporcionar benefícios nutricionais e energéticos, sem causar grandes danos à saúde.
Foi apenas no século XIX que o uso da cocaína começou a ser amplamente reconhecido na medicina. O químico alemão Albert Niemann isolou a cocaína em 1859, e logo ela foi promovida como uma substância milagrosa. Freud, em 1884, publicou um estudo defendendo seu uso terapêutico, recomendando-a como estimulante, anestésico local e até mesmo no tratamento de várias doenças. No entanto, as consequências adversas do uso excessivo logo se tornaram evidentes, com Freud e outros médicos observando os efeitos prejudiciais, como a dependência.
Além de sua aplicação médica, a cocaína também se tornou parte da cultura popular. No final do século XIX, produtos como o "Vin Mariani" e a Coca-Cola continham cocaína, com a bebida sendo comercializada como tônica para o cérebro e nervos. O advento de técnicas de refinamento de cocaína no final do século XIX facilitou sua produção em massa, tornando-a mais acessível. Com isso, começaram a surgir problemas de toxicidade, dependência e morte relacionados ao uso indiscriminado de produtos com cocaína.
Na década de 1910, o aumento da conscientização sobre os perigos da cocaína levou à criação de regulamentações que limitaram seu uso. A partir de 1930, outras drogas como as anfetaminas ganharam popularidade, contribuindo para a diminuição do uso de cocaína, que parecia ter entrado em declínio. No entanto, nas últimas décadas do século XX, a cocaína ressurgiu com força, impulsionada pela produção e distribuição mais eficazes dos cartéis sul-americanos, e a emergência de novas formas como o crack, uma versão mais barata e mais potente da cocaína, trouxe consigo novos desafios à saúde pública.
Atualmente, o abuso de cocaína continua a ser um problema de saúde global, com sérios impactos neuropsiquiátricos, cardiológicos e sociais. A droga, que já foi vista como uma solução para várias condições médicas, agora é amplamente reconhecida por seus efeitos devastadores, incluindo a dependência. O uso recreacional de cocaína, exacerbado pela redução de seu preço e pela crescente disponibilidade no mercado, resulta em uma expansão do problema. Além disso, novas formas de consumo, como o crack, trouxeram à tona um ciclo vicioso de dependência mais agressivo.
Em resumo, a história da cocaína é marcada por uma transição de sua utilização medicinal e cultural para o seu abuso generalizado, com consequências graves para a saúde pública e a sociedade. Espera-se que, com o avanço da ciência e a descoberta de novas substâncias terapêuticas, os erros cometidos com a cocaína não sejam repetidos, e que os novos agentes terapêuticos possam ser usados de forma mais responsável.