Maconha: qual a amplitude de seus prejuízos?

31/03/2025

Maconha: qual a amplitude de seus prejuízos?

Por Flavia S Jungerman, Ronaldo Laranjeira, Rodrigo A Bressan

            A maconha é a droga ilícita mais consumida em todo o mundo. O uso da maconha, geralmente intermitente e limitado, leva a uma estimativa de que 10% das pessoas que a experimentam se tornam usuárias diárias, enquanto 20% a 30% a consomem semanalmente. Dados da Austrália indicam que o início do uso tem ocorrido mais cedo, e a concentração de delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), a principal substância psicoativa da maconha, está 30% mais elevada do que há 20 anos. Alguns estudiosos sugerem que a sociedade tende a desconsiderar os danos causados pela maconha, pois seus efeitos nocivos não são tão evidentes quanto os de outras drogas.

Nos últimos anos, contudo, aumentaram as pesquisas para avaliar os efeitos do uso da maconha. Esse tema é especialmente importante para profissionais da saúde mental, uma vez que os maiores prejuízos do uso da maconha estão associados a transtornos mentais. Em dezembro de 2004, o Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres sediou a conferência internacional intitulada “Cannabis e Saúde Mental”, que abordou dois aspectos contraditórios: as consequências do uso recreativo, abuso e dependência da maconha, e o uso terapêutico dos derivados da planta (canabinóides).

Este editorial trata dos estudos sobre o impacto do uso da maconha. A partir de estudos com o THC, Mechoulam et al. descobriram o sistema endocanabinóide humano. Receptores cerebrais (CB1) e neuromoduladores, como a anandamida, desempenham um papel importante na fisiologia cerebral, regulando diversos sistemas neurotransmissores, incluindo os dopaminérgicos, serotonérgico, colinérgico, glutamatérgico e gabaérgico. Estudos com animais mostram que o uso crônico de THC causa um desajuste no sistema endocanabinóide, o que resulta em alterações nos diversos sistemas neurotransmissores.

A maconha também é a droga ilícita mais consumida por gestantes. Estudos com animais e fetos humanos abortados evidenciam efeitos cerebrais prejudiciais decorrentes da exposição intrauterina à maconha, o que pode levar a alterações na vida adulta, incluindo maior predisposição ao consumo da droga. Vários estudos indicam que o uso de maconha pode resultar em alterações cognitivas. Usuários crônicos apresentam déficits em áreas como aprendizado verbal, memória de curto prazo, atenção e funções executivas. O impacto cognitivo é mais pronunciado quanto mais precoce e duradouro for o uso. Ainda não se sabe se essas alterações cognitivas melhoram com a abstinência prolongada, e estudos maiores sobre a irreversibilidade dos déficits neuropsicológicos causados pelo uso prolongado são necessários.

Nos últimos tempos, um tema central tem sido a relação entre o uso de maconha e psicose. Verdoux et al. investigaram populações de estudantes e constataram que o uso de maconha é um fator de risco para o desenvolvimento de experiências psicóticas. Uma meta-análise recente mostrou que o uso de maconha duplica o risco de psicose e contribui para 8 a 13% dos casos de psicose na população. Mary Cannon et al., ao analisar dados de um estudo de coorte populacional realizado na Nova Zelândia, demonstraram que a maconha está associada ao surgimento de psicose em uma minoria de usuários com uma variação alélica do gene da enzima COMT (catecol-O-metiltransferase). Esses achados destacam a interação entre predisposição genética e exposição ambiental à maconha no desenvolvimento de quadros psiquiátricos. Indivíduos portadores de genes relacionados à esquizofrenia têm maior probabilidade de desenvolver a doença quando usam maconha, em comparação com os não portadores.

Embora a maconha cause alterações cerebrais mais sutis do que o álcool, a cocaína ou a heroína, isso não significa que seus efeitos não sejam relevantes. O artigo de Crippa et al., neste fascículo, revisa os principais achados sobre o impacto do uso da maconha no cérebro, incluindo os efeitos neurotóxicos residuais. Poucos estudos exploraram essa questão com metodologias adequadas, mas os autores destacam como os avanços nas técnicas de neuroimagem estrutural e funcional ajudam a investigar os efeitos da maconha e seus derivados no cérebro. O artigo sugere novos caminhos para a investigação de alterações cerebrais sutis, como estudos que combinem diferentes técnicas de neuroimagem e avaliações cognitivas.

Atualmente, é evidente que os prejuízos causados pela maconha são mais graves quanto mais cedo se inicia o uso, quanto maior a duração do consumo e quando há exposição intrauterina. Embora a maconha não seja uma condição necessária ou suficiente para o desenvolvimento de quadros psicóticos, ela é um fator causal que interage com outros componentes, como o genótipo, as condições ambientais e o neurodesenvolvimento. Embora as alterações cerebrais relacionadas ao uso da maconha sejam mais sutis do que as causadas por outras drogas, isso não significa que sejam insignificantes. Com os avanços nas técnicas de exploração do cérebro humano, temos um caminho a seguir. Acredita-se que a combinação de abordagens diversificadas, como avaliações clínicas, psicossociais, terapêuticas, neuropsicológicas, neuroimagem (estrutural, funcional e molecular) e genéticas, poderá fornecer dados mais precisos sobre as consequências do uso da maconha.

A maconha sempre foi uma planta polêmica e continua sendo, pois, além de ser uma droga de abuso que pode causar prejuízos, ela contém substâncias com propriedades terapêuticas comprovadas e potenciais. Informações científicas bem fundamentadas sobre esses dois aspectos opostos da maconha podem facilitar as discussões sobre seu uso e seus componentes na sociedade.

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