Ludomania: avaliação transcultural do jogo de azar e seu tratamento
30/03/2025

Por Jeremiah Weinstock, David M Ledgerwood, Vania Modesto-Lowe, Nancy M Petry
A ludomania, também conhecida como transtorno do jogo patológico, é caracterizada pelo comportamento compulsivo de apostar, que afeta negativamente a vida pessoal, social e profissional do indivíduo. Embora seja reconhecida internacionalmente como uma condição psiquiátrica, a compreensão e o tratamento da ludomania podem variar significativamente de acordo com o contexto cultural. O estudo de Weinstock, Ledgerwood, Modesto-Lowe e Petry oferece uma análise aprofundada dessa condição, destacando como a percepção e o tratamento do transtorno de jogo podem ser influenciados pelas diferenças culturais ao redor do mundo. A pesquisa busca entender essas diferenças, apontando a necessidade de abordagens adaptadas para o diagnóstico e tratamento, considerando as particularidades de cada cultura.
A ludomania não é vista de maneira homogênea em todas as culturas. O estudo evidencia que fatores como as normas sociais, as crenças acerca do comportamento de jogo e a aceitação ou estigmatização dessa prática variam muito de país para país. Em algumas culturas, o jogo é encarado como uma atividade recreativa sem maiores repercussões, enquanto em outras ele é tratado de maneira moralmente condenatória. Além disso, a regulamentação e a acessibilidade dos jogos de azar variam bastante entre as nações, o que pode impactar a prevalência do transtorno e os padrões do comportamento de jogo. Em países com regulamentação rígida ou onde o jogo é proibido, o transtorno pode ser menos visível ou reconhecido, enquanto em regiões onde o jogo é amplamente aceito e acessível, a prevalência de ludomania tende a ser maior. Essas diferenças podem dificultar o diagnóstico e o tratamento, especialmente em contextos multiculturais, como em populações imigrantes. O estudo destaca a importância de adaptar os critérios diagnósticos para levar em consideração as influências culturais, além de sugerir a necessidade de estratégias de tratamento que sejam sensíveis às especificidades culturais dos pacientes.
O tratamento da ludomania também exige uma abordagem que considere as variações culturais. Modelos terapêuticos ocidentais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a abordagem de 12 passos, têm se mostrado eficazes, mas nem sempre são bem-sucedidos em outras culturas. Em algumas sociedades, intervenções focadas na mudança de comportamento individual podem não ser tão eficazes quanto aquelas que incorporam valores coletivos ou familiares. O estudo sugere que, em várias culturas, o apoio social, especialmente o apoio da família, é crucial para o sucesso do tratamento, enquanto em outras, esse apoio pode não ter a mesma relevância. O estigma relacionado ao transtorno do jogo em determinadas culturas também é um fator que dificulta a busca por tratamento, já que muitos indivíduos evitam procurar ajuda devido ao medo de julgamento social. Assim, a pesquisa indica que é necessário desenvolver abordagens terapêuticas flexíveis, que se ajustem aos valores e realidades culturais de cada paciente.
Além disso, a investigação de Weinstock e colegas aponta que as políticas públicas e as estratégias de prevenção precisam ser moldadas com base nas realidades culturais locais. A regulamentação do jogo, as campanhas educativas e as intervenções de prevenção devem considerar como o jogo é visto e praticado em diferentes sociedades. Em culturas onde o jogo é amplamente aceito, por exemplo, as campanhas de prevenção podem ser mais eficazes se abordarem os riscos do jogo excessivo, ao invés de tentarem eliminar a prática do jogo por completo. Por outro lado, em sociedades onde o jogo é socialmente marginalizado ou proibido, as campanhas de conscientização devem focar em normalizar a busca por ajuda, desafiando o estigma que impede as pessoas de procurar tratamento.
Em última análise, a ludomania é um transtorno com características universais, mas que é profundamente moldado pelas influências culturais. O estudo de Weinstock e seus colaboradores revela como a percepção e o tratamento da ludomania variam ao redor do mundo, destacando a importância de uma abordagem transcultural tanto no diagnóstico quanto no tratamento. Os profissionais de saúde mental precisam ser sensíveis às diferenças culturais e adaptar suas intervenções de acordo com as necessidades de cada paciente. Além disso, as políticas públicas devem ser cuidadosa e culturalmente ajustadas, garantindo que todos os indivíduos afetados pela ludomania recebam o apoio adequado para enfrentar essa condição, independentemente de sua origem cultural.